Project Gutenberg's Como e porque sou romancista, by Jos de Alencar

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Title: Como e porque sou romancista

Author: Jos de Alencar

Release Date: June 5, 2009 [EBook #29040]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA ***




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                              JOS DE ALENCAR

                        Como e porque sou romancista




                               RIO DE JANEIRO
               Typ. de G. Leuzinger & Filhos, Rua d'Ouvidor 31
                                   1893




                        COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA




                              JOS DE ALENCAR

                        Como e porque sou romancista




                               RIO DE JANEIRO
               Typ. de G. Leuzinger & Filhos, Rua d'Ouvidor 31
                                   1893




_Como e porque sou romancista_ faz parte da colleco de trabalhos
ineditos, mais ou menos incompletos, que mais tarde, sob o titulo geral
de _Obras Posthumas_, ho de vir  luz da publicidade.

Todavia, sendo essa publicao muito morosa e difficil, entendi no
dever por mais tempo conservar occultos aos leitores certos trabalhos,
que naturalmente satisfazem a curiosidade publica. Assim, antecipo hoje
o apparecimento desta autobiographia litteraria, em que sob a frma de
carta, Jos de Alencar expe, singela e sinceramente, todas as
circumstancias da sua vida, que, influindo-lhe no espirito, despertaram
a sua extraordinaria e vigorosa vocao de escriptor, e principalmente
de romancista.

Rio, abril de 93.

MARIO ALENCAR.




I

Meu amigo,

Na conversa que tivemos, ha dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca
da minha peregrinao litteraria, alguns pormenores dessa parte intima
de nossa existencia, que geralmente fica  sombra, no regao da familia,
ou na reserva da amizade.

Sabendo de seus constantes esforos para enriquecer o illustrado author
do _Diccionario Bibliographico_, de copiosas noticias que elle
difficilmente obteria  respeito de escriptores brazileiros, sem a
valiosa coadjuvao de to erudito glossologo; pensei que me no devia
eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena quota para a
amortizao desta divida de nossa ainda infante litteratura.

Como bem reflexionou V., ha na existencia dos escriptores factos
communs, do viver quotidiano, que todavia exercem uma influencia notavel
em seu futuro, e imprimem em suas obras o cunho individual.

Estes factos jornaleiros, que  propria pessoa muitas vezes passam
despercebidos sob a monotonia do presente, formam na biographia do
escriptor a urdidura da tela, que o mundo smente v pela face do matiz
e dos recamos.

J me lembrei de escrever para meus filhos essa authobiographia
litteraria, onde se acharia a historia das creaturinhas enfesadas, de
que, por mal de meus peccados, tenho povoado as estantes do Sr. Garnier.

Seria esse o _livro dos meus livros_. Si n'alguma hora de pachorra, me
dispuzesse  refazer a canada jornada dos quarenta e quatro annos, j
completos; os curiosos de anedoctas litterarias saberiam, alm de muitas
outras cousas minimas, como a inspirao do Guarany, por mim escripto
aos 27 annos, cahio na imaginao da criana de nove, ao atravessar as
matas e sertes do norte em jornada do Cear  Bahia.

Emquanto no vem ao lume do papel, que para o da imprensa ainda  cedo,
essa obra futura; quero em sua inteno fazer o rascunho de um capitulo.

Ser d'aquelle, onde se referem as circumstancias,  que attribuo a
predileco de meu espirito pela frma litteraria do romance.


II

No anno de 1840 frequentava eu o _Collegio de Instruco Elementar_,
estabelecido  rua do Lavradio n. 17, e dirigido pelo Sr. Januario
Matheus Ferreira,  cuja memoria eu tributo a maior venerao.

Depois daquelle que  para ns meninos a encarnao de Deus e o nosso
humano Creador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em
quem acatei o symbolo da authoridade.

Quando me recolho da labutao diaria com o espirito mais desprendido
das preocupaes do presente, e succede-me ao passar pela rua do
Lavradio pr os olhos na taboleta do collegio que ainda l est na
sacada do n. 17, mas com diversa designao; transporto-me
insensivelmente quelle tempo, em que de fraque e bon, com os livros
sobraados, eu esperava alli na calada fronteira o toque da sineta que
annunciava a abertura das aulas.

Toda minha vida collegial se desenha no espirito com to vivas cores,
que parecem frescas de hontem, e todavia mais de trinta annos j lhes
pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoriando na loja, que
servia de saguo; assisto aos manejos da cabala para a proxima eleio
do monitor geral; oio o tropel do bando que sobe as escadas, e se
dispersa no vasto salo onde cada um busca o seu banco numerado.

Mas o que sobretudo assoma nessa tela  o vulto grave de Januario
Matheus Ferreira, como eu o via passeando deante da classe, com um livro
na mo e a cabea reclinada pelo habito da reflexo.

Usava elle de sapatos rinchadores; nenhum dos alumnos do seu collegio
ouvia de longe aquelle som particular, na volta de um corredor, que no
sentisse um involuntario sobresalto.

Januario era talvez rispido e severo em demazia; porm, nenhum professor
o excedeu no zelo e enthusiasmo com que desempenhava o seu arduo
ministerio. Identificava-se com o discipulo; transmittia-lhe suas
emoes e tinha o dom de crear no corao infantil os mais nobres
estimulos, educando o espirito com a emulao escholastica para os
grandes certamens da intelligencia.

Os modestos triumphos, que todos ns obtemos na eschola, e que no vm
ainda travados de fel como as mentidas ovaes do mundo; essas primicias
litterarias to puras, devo-as  elle,  meu respeitavel mestre que
talvez deixou em meu animo o germen dessa fertil ambio de correr apoz
uma luz que nos foge; illuso que felizmente j dissipou-se.

Dividia-se o director por todas as classes embora tivesse cada uma seu
professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do
aproveitamento de seus alumnos, e trazia os mestres como os discipulos
em constante inspeco. Quando, nesse revesamento de lices, que elle
de proposito salteava, acontecia achar atrazada alguma classe,
demorava-se com ella dias e semanas, at que obtinha adiantal-a e s
ento a restituia ao respectivo professor.

Meado, o anno, porm, o melhor dos cuidados do director voltava-se para
as ultimas classes, que elle se esmerava em preparar para os exames.
Eram estes dias de gala e de honra para o collegio, visitado por quanto
havia na Crte de illustre em politica e lettras.

Pertencia eu  sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, no
por superioridade intellectual, sim por mais assidua applicao e maior
desejo de aprender.

Januario exhultava  cada uma de minhas victorias, como se fra elle
proprio que estivesse no banco dos alumnos  disputar-lhes o logar, em
vez de achar-se como professor dirigindo os seus discipulos.

Rara vez sentava-se o director; o mais do tempo levava  andar de um 
outro lado da sala em passo moderado. Parecia inteiramente distrahido da
classe, para a qual nem volvia os olhos; e todavia nada lhe escapava. O
apparente descuido punha em prova a atteno incessante que elle exigia
dos alumnos, e da qual sobretudo confiava a educao da intelligencia.

Uma tarde ao findar a aula, houve pelo meio da classe um erro.--Adeante,
disse Januario, sem altear a voz, nem tirar os olhos do livro. No
recebendo resposta ao cabo de meio minuto, repetiu a palavra, e assim de
seguida mais seis vezes.

Calculando pelo numero dos alumnos, estava na mente de que s  setima
vez, depois de chegar ao fim da classe  que me tocava responder como o
primeiro na ordem da collocao.

Mas um menino dos ultimos lugares tinha sahido poucos momentos antes com
licena, e escapava-me esta circumstancia. Assim, quando sorrindo eu
esperava a palavra do professor para dar o quino, e ao ouvir o setimo
_adeante_, perfilei-me no impulso de responder; um olhar de Januario
gelou-me a voz nos labios.

Comprehendi; tanto mais quanto o menino ausente voltava  tomar seu
lugar. No me animei  reclamar; porm creio que em minha phisionomia se
estampou com a sinceridade e a energia da infancia, o confrangimento de
minha alma.

Meu immediato e emulo, que me foi depois amigo e collega de anno em S.
Paulo, era o Aguiarsinho (Dr. Antonio Nunes de Aguiar), filho do
distincto general do mesmo nome, bella intelligencia e nobre corao
ceifados em flor, quando o mundo lhe abria de par em par as suas portas
de ouro e porphiro.

Ancioso aguardava elle a occasio de se desforrar da partida que lhe eu
havia ganho, depois de uma luta porfiada--Todavia no lhe acodiu a
resposta de prompto; e passaria a sua vez, si o director no lhe
deixasse tempo bastante para maior esforo do que fra dado aos outros e
sobretudo  mim--Afinal occorreu-lhe a resposta, e eu com o corao
tranzido, cedi ao meu vencedor o lugar de honra que tinha conquistado de
gro em gro, e conseguira sustentar havia mais de dous mezes.

Nos trinta annos vividos desde ento, muita vez fui esbulhado do fructo
do meu trabalho pela mediocridade agaloada; nunca senti seno o desprezo
que merecem taes pirraas da fortuna, despeitada contra aquelles que no
a incensam.

Naquelle momento porm, vendo perdido o premio de um estudo assiduo, e
mais por sorpreza, do que por deficiencia, saltaram-me as lagrimas que
eu traguei silenciosamente, para no abater-me ante a adversidade.

Nossa classe trabalhava em uma varanda ao rez do cho, cercada pelo
arvoredo do quintal.

Quando, pouco antes da Ave-Maria, a sineta dava signal da hora de
encerrar as aulas, Januario fechava o livro; e com o tom breve do
commando ordenava uma especie de manobra que os alumnos executavam com
exactido militar.

Por causa da distancia da varanda, era quando todo o collegio j estava
reunido no grande salo e os meninos em seus assentos numerados, que
entrava em passo de marcha a sexta classe  cuja frente vinha eu, o mais
pirralho e enfezadinho da turma em que o geral se avantajava na
estatura, fazendo eu assim as vezes de um ponto.

A constancia com que me conservava  frente da classe no meio das
alteraes que em outras se davam todos os dias, causava sensao no
povo collegial; faziam-se apostas de lapis e canetas; e todos os olhos
se voltavam para ver si o caturrinha do Alencar 2. (era o meu apellido
collegial) tinha afinal descido de monitor de classe.

O general derrotado  quem a sua ventura reservava a humilhao de
assistir  festa de victoria, jungido ao carro triumphal de seu emulo,
no soffria talvez a dor que eu ento curti, s com a ideia de entrar no
salo, rebaixado de meu titulo de monitor, e rechassado para o segundo
lugar.

Si ao menos se tivesse dado o facto no comeo da lio, restava-me a
esperana de com algum esforo recuperar o meu posto; mas por cumulo de
infelicidade sobreviera o meu desastre justamente nos ultimos momentos,
quando a hora estava  findar.

Foi no meio dessas reflexes que tocou a sineta, e as suas badaladas
resoaram em minha alma como o dobre de uma campa.

Mas Januario que era acerca de disciplina collegial de uma pontualidade
militar, no deu pelo aviso e amiudou as perguntas, percorrendo
apressadamente a classe. Poucos minutos depois eu recobrava meu lugar, e
erguia-me tremulo para tomar a cabea do banco.

O jubilo, que expandiu a phisionomia sempre carregada do director, eu
proprio no o tive maior, com o abalo que soffri. Elle no se poude
conter e abraou-me deante da classe.

Naturalmente a questo proposta e cuja soluo deu-me a victoria, era
difficil; e por isso attribuia-me elle um merito, que no provinha
talvez sino da sorte, para no dizer do acaso.

Momentos depois entrava eu pelo salo  frente da classe, onde me
conservei at o exame.


III

Mais tarde quando a razo, como o fructo, despontou sob a flor da
juventude, muitas vezes cogitei sobre esse episodio de infancia, que
deixara em meu espirito uma vaga duvida  respeito do caracter de
Januario.

Ento o excessivo rigor que se me tinha afigurado injusto, tomava o seu
real aspecto; e me apparecia como o golpe rude, mas necessario que d
tempera ao ao. Por ventura notara o director de minha parte uma
confiana que deixava em repouso as minhas faculdades, e da qual
proviera o meu descuido.

Este episodio escholastico veio aqui por demais, trazido pelo fio das
reminiscencias. Serve entretanto para mostrar-lhe o aproveitamento que
deviam tirar os alumnos desse methodo de ensino.

Sabiamos pouco; mas esse pouco, sabiamos bem. Aos onze annos no
conhecia uma s palavra de lingua estrangeira, nem aprendra mais do que
as chamadas primeiras lettras.

Muitos meninos porm, que nessa idade tagarellam em varias linguas, e j
babujam nas sciencias; no recitam uma pagina de Frei Francisco de S.
Luiz, ou uma ode do Padre Caldas, com a correco, nobreza, eloquencia e
alma que Januario sabia transmittir  seus alumnos.

Essa prenda que a educao deu-me para tomal-a pouco depois, valeu-me em
casa o honroso cargo de _ledor_, com que me eu desvanecia; como nunca me
succedeu ao depois no magisterio ou no parlamento.

Era eu quem lia para minha boa me no smente as cartas e os jornaes,
como os volumes de uma diminuta livraria romantica formada ao gosto do
tempo.

Moravamos ento na rua do Conde n. 55[1]. Ahi nessa casa preparou-se a
grande revoluo parlamentar que entregou ao Sr. D. Pedro II o exercicio
antecipado de suas prerogativas constitucionaes.

 proposito desse acontecimento historico, deixe passar aqui nesta
confidencia inteiramente litteraria, uma observao que me acode e, si
escapa agora, talvez no volte nunca mais.

Uma noite por semana, entravam mysteriosamente em nossa casa os altos
personagens filiados ao _Club Maiorista_ de que era presidente o
Conselheiro Antonio Carlos e Secretario o Senador Alencar.

Celebravam-se os seres em um aposento do fundo, fechando-se nessas
occasies a casa s visitas habituaes, afim de que nem ellas nem os
curiosos da rua suspeitassem do plano politico, vendo illuminada a sala
da frente.

Em quanto deliberavam os membros do Club, minha boa Mi, assistia ao
preparo de chocolate com bolinholos, que era costume offerecer aos
convidados por volta de nove horas, e eu, ao lado com impertinencias de
filho querido, insistia por saber o que alli ia fazer aquella gente.

Conforme o humor em que estava, minha boa me s vezes divertia-se
logrando com historias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me
fallar s paredes e no se distrahia de suas occupaes de dona de casa.

At que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas
gulosinas a bandeja que voltava completamente destroada; eu que tinha
os convidados na conta de cidados respeitaveis, preoccupados dos mais
graves assumptos, indignava-me ante aquella devastao, e dizia com a
mais profunda convico:

--O que estes homens vem fazer aqui  regalarem-se de chocolate.

Essa, a primeira observao do menino em cousas de politica, ainda a no
desmentio a experiencia do homem. No fundo de todas as evolues l est
o _chocolate_ embora sob varios aspectos.

Ha caracteres integros, como o do Senador Alencar, apostolos sinceros de
uma ida e martyres della. Mas estes so esquecidos na hora do triumpho,
quando no servem de victimas para aplacar as iras celestes.

Supprima este mo trecho que insinuou-se mo grado e contra todas as
usanas em uma palestra, sino _au coin du feu_, em todo o caso aqui
n'este cantinho da imprensa.

Afra os dias de sesso, a sala do fundo era a estao habitual da
familia.

No havendo visitas de ceremonia, sentava-se minha boa me e sua irm D.
Florinda com os amigos que appareciam, ao redor de uma mesa redonda de
jacarand, no centro da qual havia um candieiro.

Minha me e minha tia se occupavam com trabalhos de costuras, e as
amigas para no ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos
 conversao, passava-se  leitura e era eu chamado ao lugar de honra.

Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem  contra gosto de um
somno comeado ou de um folguedo querido; j naquella idade a reputao
 um fardo e bem pesado.

Lia-se at a hora do ch, e topicos havia to interessantes que eu era
obrigado  repetio. Compensavam esse excesso, as pausas para dar logar
s expanses do auditorio, o qual desfazia-se em recriminaes contra
algum mo personagem, ou acompanhava de seus votos e sympathias o here
perseguido.

Uma noite, daquellas em que eu estava mais possuido do livro, lia com
expresso uma das paginas mais commoventes da nossa bibliotheca. As
senhoras, de cabea baixa, levavam o leno ao rosto, e poucos momentos
depois no poderam conter os soluos que rompiam-lhes o seio.

Com a voz afogada pela commoo e a vista empanada pelas lagrimas, eu
tambem cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia
com palavras de consolo s lamentaes de minha me e suas amigas.

Nesse instante assomava  porta um parente nosso, o Revd. Padre Carlos
Peixoto de Alencar, j assustado com o choro que ouvira ao
entrar--Vendo-nos  todos naquelle estado de afflico, ainda mais
perturbou-se:

--Que aconteceu? Alguma desgraa? perguntou arrebatadamente.

As senhoras, escondendo o rosto no leno para occultar do Padre Carlos o
pranto e evitar os seus remoques, no proferiram palavra. Tomei eu  mim
responder:

--Foi o pe de Amanda que morreu! disse mostrando-lhe o livro aberto.

Comprehendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como elle as sabia
dar, verdadeira gargalhada homerica, que mais parecia uma salva de sinos
 repicarem do que riso humano. E apoz esta, outra e outra, que era elle
inexgotavel, quando ria de abundancia de corao, com o genio
prazenteiro de que a natureza o dotara.

Foi essa leitura continua e repetida de novellas e romances que primeiro
imprimio em meu espirito a tendencia para essa frma litteraria que 
entre todas a de minha predileco?

No me animo  resolver esta questo psychologica, mas creio que ninguem
contestar a influencia das primeiras impresses.

J vi attribuir o genio de Mozart e sua precoce revelao 
circumstancia de ter elle sido acalentado no bero e criado com musica.

Nosso repertorio romantico era pequeno; compunha-se de uma duzia de
obras entre as quaes primavam a _Amanda e Oscar_, _Saint-Clair das
Ilhas_, _Celestina_ e outros de que j no me recordo.

Esta mesma escassez, e a necessidade de reler uma e muitas vezes o mesmo
romance, qui contribuiu para mais gravar em meu espirito os moldes
dessa estructura litteraria, que mais tarde deviam servir aos informes
esboos do novel escriptor.

Mas no tivesse eu herdado de minha santa me a imaginao de que o
mundo apenas v as flores, desbotadas embora, e de que eu smente sinto
a chama incessante; que essa leitura de novellas mal teria feito de mim
um mecanico litterario, desses que escrevem presepes em vez de romances.


IV

O primeiro broto da semente que minha boa me lanara em meu espirito
infantil, ignara dos desgostos que preparava  seu filho querido, veio
dois annos depois.

Entretanto  preciso que lhe diga. Si a novella foi a minha primeira
lico de litteratura, no foi ella que me estreou na carreira de
escriptor. Este titulo cabe  outra composio, modesta e ligeira, e por
isso mesmo mais propria para exercitar um espirito infantil.

O dom de produzir a faculdade creadora, si a tenho, foi a charada que a
desenvolveu em mim, e eu teria prazer em referir-lhe esse episodio
psychologico, si no fosse o receio de alongar-me demasiado, fazendo
novas excurses fra do assumpto que me propuz.

Foi em 1841.

J ento haviamos deixado a casa da rua do Conde, e moravamos na Chacara
da rua de Maruhy n. 7, d'onde tambem sahiram importantes acontecimentos
de nossa historia politica. E todavia ninguem se lembrou ainda de
memorar o nome do Senador Alencar, nem mesmo por esse meio economico de
uma esquina de rua.

No vai nisso mais que um reparo, pois sou avesso  semelhante modo de
honrar a memoria dos benemeritos; alm de que ainda no perdi a
esperana de escrever esse nome de minha venerao no frontespicio de um
livro que lhe sirva de monumento. O seu vulto historico, no o attingem
por certo as calumnias posthumas que sem reflexo foram acolhidas em
umas paginas ditas de _historia constitucional_; mas quantos dentre vs
estudam conscienciosamente o passado?

Como a revoluo parlamentar da maioridade, a revoluo popular de 1842
tambem sahiu de nossa casa, embora o plano definitivo fosse adoptado em
casa do Senador Jos Bento  rua do Conde 39.

Nos paroxismos, quando a abortada revoluo j no tinha glorias, mas s
perigos para os seus adeptos, foi na chacara do Senador Alencar que os
perseguidos acharam asylo: em 1842 como em 1848.

Entre os nossos hospedes da primeira revoluo, estava o meu excellente
amigo Joaquim Sombra, que tomara parte no movimento sedicioso do Ex e
sertes de Pernambuco.

Contava elle ento os seus vinte e poucos annos: estava na flor da
mocidade, cheio de illuses e enthusiasmos. Meus versos arrebentados 
fora de os esticar, agradavam-lhe ainda assim, porque no fim de contas
eram um arremedo de poesia; e por ventura levavam um perfume da
primavera d'alma.

Vendo-me elle essa mania de rabiscar, certo dia propoz-me que
aproveitasse para uma novella o interessante episodio da sedio, do
qual era elle o protogonista.

A idea foi acceita com fervor; e tratamos logo de a por em obra.

A scena era em _Pajih de Flores_, nome que s por si enchia-me o
espirito da fragrancia dos campos nativos, sem fallar dos encantos com
que os descrevia o meu amigo.

Esse primeiro rascunho foi-se com os folguedos da infancia que o viram
nascer. Das minhas primicias litterarias nada conservo; lancei-as ao
vento, como palhio que eram da primeira copa.

No acabei o romance do meu amigo Sombra; mas em compensao de no
tel-o feito here de um poema, coube-me, vinte sete annos depois, a
fortuna mais prosaica de nomeal-o coronel, posto que elle dignamente
occupa e no qual presta relevantes servios  causa publica.

Um anno depois parti para S. Paulo, onde ia estudar os preparatorios que
me faltavam para a matricula no curso juridico.


V

Com a minha bagagem, l no fundo da canastra, iam uns quadernos
escriptos em lettra miuda e conchegada. Eram o meu thesouro litterario.

Alli estavam fragmentos de romances, alguns apenas comeados, outros j
no desfecho, mas ainda sem principio.

De charadas e versos nem lembrana. Estas flores ephemeras das primeiras
aguas tinham passado com ellas. Rasgara as paginas dos meus canhenhos e
atirara os fragmentos no turbilho das folhas seccas das mangueiras, 
cuja sombra folgara aquelle anno feliz de minha infancia.

Nessa epocha tinha eu dois moldes para o romance.

Um merencorio, cheio de mysterios e pavores; esse, o recebera das
novellas que tinha lido. Nelle a scena comeava nas minas de um
castello, amortalhadas pelo bao claro da lua; ou n'alguma capella
gothica frouxamente esclarecida pela lampada, cuja luz esbatia-se na
lousa de uma campa.

O outro molde, que me fra inspirado pela narrativa pittoresca do meu
amigo Sombra, era risonho, louo, brincado, recendendo graas e
perfumes agrestes. Ahi a scena abria-se em uma campina, marchetada de
flores, e regada pelo sussurrante arroio que a bordava de recamos
cristalinos.

Tudo isto porem era esfumilho que mais tarde devia apagar-se.

A pagina academica  para mim, como para os que a viveram, riquissima de
reminiscencias, e nem podia ser de outra frma, pois abrange a melhor
mono da existencia.

No tomarei della porem sino o que tem relao com esta carta.

Ao chegar a S. Paulo era eu uma criana de treze annos, commettida aos
cuidados de um parente, ento estudante do terceiro anno, e que
actualmente figura com lustre na politica e na magistratura.

Algum tempo depois de chegado, installou-se a nossa republica ou
communho academica  rua de S. Bento, esquina da rua da Quitanda, em um
sobradinho acachapado, cujas lojas do fundo eram occupadas por
quitandeiras.

Nossos companheiros foram dois estudantes do quinto anno; um delles j
no  deste mundo; o outro pertence  alta magistratura, de que 
ornamento. Naquelles bons tempos da mocidade, deleitava-o a litteratura,
e era enthusiasta do Dr. Joaquim Manoel de Macedo que pouco havia
publicara o seu primeiro e gentil romance--_A Moreninha_.

Ainda me recordo das palestras em que o meu companheiro de casa fallava
com abundancias de corao em seu amigo e nas festas campestres do
romantico Itaborahy, das quaes o jovem escriptor era o idolo querido.

Nenhum dos ouvintes bebia esses pormenores com tamanha avidez como eu,
para quem eram elles completamente novos. Com a timidez e o acanhamento
de meus treze annos, no me animava  intervir na palestra; escutava 
parte; e por isso ainda hoje tenho-as gravadas em minhas reminiscencias,
 estas scenas do viver escholastico.

Que extranho sentir no despertava em meu corao adolescente a noticia
dessas homenagens de admirao e respeito tributados ao joven author da
_Moreninha_! Qual regio diadema valia essa aureola de enthusiasmo 
cingir o nome de um escriptor?

No sabia eu ento que em meu paiz essa luz, que dizem gloria, e de
longe se nos affigura radiante e esplendida, no  sino o bao lampejo
de um fogo de palha.

Naquelle tempo o commercio dos livros era como ainda hoje artigo de
luxo; todavia, apesar de mais baratas, as obras litterarias tinham menor
circulao. Provinha isso da escassez das communicaes com a Europa, e
da maior raridade de livrarias e gabinetes de leitura.

Cada estudante porem, levava comsigo a modesta proviso que juntara
durante as ferias, e cujo uso entrava logo para a communho escolastica.
Assim correspondia S. Paulo s honras de sede de uma _academia_,
tornando-se o centro do movimento litterario.

Uma das livrarias, a que maior cabedal trazia  nossa commum
bibliotheca, era de Francisco Octaviano, que herdou do pai uma escolhida
colleco das obras dos melhores escriptores da litteratura moderna, a
qual o jovem poeta no se descuidava de enriquecer com as ultimas
publicaes.

Meu companheiro de casa era dos amigos de Octaviano, e estava no direito
de usufruir sua opulencia litteraria. Foi assim que um dia vi pela
primeira vez o volume das obras completas de Balzac, nessa edico em
folha que os typographos da Belgica vulgarisam por preo modico.

As horas que meu companheiro permanecia fra, passava-as eu com o volume
na mo,  reler os titulos de cada romance da colleco; hesitando na
escolha daquelle por onde havia de comear. Afinal decidia-me por um dos
mais pequenos; porem, mal comeada a leitura, desistia ante a
difficuldade.

Tinha eu feito exame de francez  minha chegada em S. Paulo e obtivera
approvao plena, traduzindo uns trechos do Telemaco e da Henriqueida;
mas, ou soubesse eu de outiva a verso que repeti, ou o francez de
Balzac no se parecesse em nada com o de Fenelon e Voltaire; o caso 
que no conseguia comprehender um periodo de qualquer dos romances da
colleco.

Todavia achava eu um prazer singular em percorrer aquellas paginas, e
por um ou outro fragmento de idea que podia colher nas phrases
indecifraveis, imaginava os thesouros, que alli estavam defezos  minha
ignorancia.

Conto-lhe este pormenor para que veja quo descurado foi o meu ensino de
francez, falta que se deu em geral com toda a minha instruco
secundaria, a qual eu tive de refazer na maxima parte, depois de
concluido o meu curso de direito, quando senti a necessidade de crear
uma individualidade litteraria.

Tendo meu companheiro concluido a leitura de Balzac,  instancias
minhas, passou-me o volume, mas constrangido pela opposio de meu
parente que receiava dessa diverso.

Encerrei-me com o livro, e preparei-me para a lucta. Escolhido o mais
breve dos romances, armei-me do diccionario, e tropeando  cada
instante, buscando significados de palavra em palavra, tornando atraz
para reatar o fio da orao; arquei sem esmorecer com a improba tarefa.
Gastei oito dias com a _Grenadire_; porm um mez depois acabei o volume
de Balzac; e no resto do anno li o que ento havia de Alexandre Dumas e
Alfredo de Vigny, alm de muito de Chateaubriand e Victor Hugo.

A eschola franceza, que eu ento estudava nesses mestres da moderna
litteratura, achava-me preparado para ella. O molde do romance, qual m'o
havia revelado por mera casualidade aquelle arrojo de criana  tecer
uma novella com os fios de uma ventura real; fui encontral-o fundido com
a elegancia e belleza que jamais lhe poderia dar.

E ahi est, porque justamente quando a sorte me deparava o modelo 
imitar, meu espirito desquitava-se dessa, a primeira e a mais cara de
suas aspiraes, para devaneiar por outras devesas litterarias, onde
brotam flores mais singelas e modestas.

O romance, como eu agora o admirava, poema da vida real, me apparecia na
altura dessas criaes sublimes, que a Providencia s concede aos
semi-deuses do pensamento; e que os simples mortaes no podem ousar,
pois arriscam-se  derreter-lhes o sol, como  Icaro, as pennas de cysne
grudadas com cra.

Os arremedos de novellas, que eu escondia no fundo do meu bah,
desprezei-os ao vento. Peza-me ter destruido as provas desses primeiros
tentamens que seriam agora reliquias para meus filhos, e estimulos para
fazerem melhor. S por isso; que de valor litterario no tinham nem
ceitil.

Os dois primeiros annos que passei em S. Paulo, foram para mim de
contemplao e recolhimento de espirito. Assistia arredio ao bulicio
academico; e familiarisava-me de parte com esse viver original,
inteiramente desconhecido para mim, que nunca fra pensionista de
collegio, nem havia at ento deixado o regao da familia.

As palestras  meza do ch; as noites de _cinismo_ conversadas at o
romper d'alva entre a fumaa dos cigarros; as anedoctas e aventuras da
vida academica, sempre repetidas; as poesias classicas da litteratura
paulistana e as cantigas tradiccionaes do povo estudante; tudo isto
sugava o meu espirito adolescente, como a tenra planta que absorve a
limpha, para mais tarde desabrochar a talvez pallida florinha.

Depois vinham os discursos recitados nas solemnidades escolares, alguma
nova poesia de Octaviano; os brindes nos banquetes de estudantes; o
apparecimento de alguma obra recentemente publicada na Europa; e outras
novidades litterarias, que agitavam a rotina do nosso viver habitual e
commoviam um instante a colonia academica.

No me recordo de qualquer tentamen litterario de minha parte at fins
de 1844.

Os estudos de philosophia e historia preenchiam o melhor de meu tempo, e
de todo me attrahiam.

O unico tributo que paguei ento  moda academica, foi o das citaes.
Era nesse anno de bom tom ter de memoria phrases e trechos escolhidos
dos melhores authores, para repetil-os  proposito.

Vistos de longe, e atravez da razo, esses arremedos de erudico,
arranjados com seus remendos alheios, nos parecem ridiculos; e todavia 
esse jogo de imitao que primeiro imprime ao espirito a flexibilidade,
como ao corpo o da gymnastica.

Em 1845 voltou-me o prurido de escriptor; mas esse anno foi consagrado 
mania que ento grassava de _baironisar_. Todo estudante de alguma
imaginao queria ser um Byron; e tinha por destino inexoravel copiar ou
traduzir o bardo inglez.

Confesso que no me sentia o menor geito para essa transfuso; talvez
pelo meu genio taciturno e concentrado, que j tinha em si melancolia de
sobejo, para no carecer desse emprestimo. Assim  que nunca passei de
algumas peas ligeiras, das quaes no me figurava here e nem mesmo
author; pois divertia-me em escrevel-as com o nome de Byron, Hugo, ou
Lamartine nas paredes de meu aposento  rua de S. Thereza, onde alguns
camaradas d'aquelle tempo, ainda hoje meus bons amigos, os Drs. Costa
Pinto e Jos Brusque, talvez se recordem de as terem lido.

Era um desacato aos illustres poetas attribuir-lhes versos de confeco
minha; mas a brocha do caiador, incumbido de limpar a casa pouco tempo
depois de minha partida, vingou-os desse innocente estratagema, com que
nesse tempo eu libava a delicia mais suave para o escriptor: ouvir
ignoto o louvor de seu trabalho.

Que satisfao intima no tive eu, quando um estudante, que era ento o
inseparavel amigo de Octaviano e seu irmo em lettras, mas hoje chama-se
o Baro de Ourem, releu com enthusiasmo uma dessas poesias, seduzido sem
duvida, pelo nome do pseudo-author!  natural que hoje nem se lembre
desse pormenor; e mal saiba que de todos os cumprimentos que depois
recebi de sua cortezia, nenhum valia aquelle expontaneo movimento.

Os dois annos seguintes pertencem  imprensa periodica. Em outra
occasio escreverei esta, uma das paginas mais agitadas da minha
adolescencia. Dahi datam as primeiras raizes de jornalista; como todas
as manifestaes de minha individulidade, essa tambem iniciou-se no
periodo organico.

O unico homem novo e quasi extranho que nasceu em mim com a virilidade,
foi o politico. Ou no tinha vocao para essa carreira, ou considerava
o governo do estado coisa to importante e grave, que no me animei
nunca a ingerir-me nesses negocios. Entretanto eu sahia de uma familia
para quem a politica era uma religio, e onde se haviam elaborado
grandes acontecimentos de nossa historia.

Fundamos, os primeirannistas de 1846, uma revista semanal sob o
titulo--_Ensaios Litterarios._

Dos primitivos collaboradores desse periodico, saudado no seu
apparecimento por Octaviano e Olimpio Machado, j ento redactores da
_Gazeta Official_, falleceu ao terminar o curso o Dr. Araujo, inspirado
poeta. Os outros ahi andam dispersos pelo mundo. O Dr. Jos Machado
Coelho de Castro  presidente do Banco do Brazil; o Dr. Joo Guilherme
Whitaker  juiz de direito em S. Joo do Rio Claro; e o conselheiro Joo
de Almeida Pereira, depois de ter luzido no ministerio e no parlamento,
repousa das lides politicas no remanso da vida privada.


VI

Foi somente em 1848 que resurgiu em mim a veia do romance.

Acabava de passar dois mezes em minha terra natal. Tinha-me repassado
das primeiras e to fagueiras recordaes da infancia, alli nos mesmos
sitios queridos onde nascera.

Em Olinda onde estudava meu terceiro anno e na velha bibliotheca do
convento de S. Bento  ler os chronistas da era colonial; desenhavam-se
 cada instante na tela das reminiscencias, as paysagens do meu patrio
Cear.

Eram agora os seus taboleiros gentis; logo apoz as varzeas amenas e
graciosas; e por fim as matas seculares que vestiam as serras como a
ararroia verde do guerreiro tabajara.

E atravez destas tambem esfumavam-se outros paineis, que me
representavam o serto em todas as suas galas de inverno, as selvas
gigantes que se prolongam at os Andes, os rios caudalosos que avassalam
o deserto, e o magestoso S. Francisco transformado em um oceano, sobre o
qual eu navegara um dia.

Scenas estas que eu havia contemplado com olhos de menino dez annos
antes, ao atravessar essas regies em jornada do Cear  Bahia; e que
agora se debuxavam na memoria do adolescente, e coloriam-se ao vivo com
as tintas frescas da palheta cearense.

Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto do
Guarany ou de Iracema, fluctuava-me na fantasia. Devorando as paginas
dos alfarrabios de noticias coloniaes, buscava com soffreguido um thema
para o meu romance; ou pelo menos um protogonista, uma scena e uma
epocha.

Recordo-me de que para o martyrio do Padre Francisco Pinto, morto pelos
Indios do Jaguaribe, se volvia meu espirito com predileco. Intentava
eu figural-o na mesma situao em que se achou o Padre Anchieta, na
praia de Iperoig; mas succumbindo afinal  tentao. A lucta entre o
apostolo e o homem, tal seria o drama, para o qual de certo me falleciam
as foras.

Actualmente que, embora em scena diversa, j tratei o assumpto em um
livro proximo  vir  lume; posso avaliar da difficuldade da empreza.

Subito todas aquellas locubraes litterarias apagaram-se em meu
espirito. A molestia tocara-me com sua mo descarnada; e deixou-me uma
especie de terror da solido em que tanto se deleitava o meu espirito, e
onde se embalavam as scismas e devaneios de fantasia. Foi quando
desertei de Olinda, onde s tinha casa de estado, e acceitei a boa
hospitalidade de meu velho amigo Dr. Canarim, ento collega de anno e um
dos seis da colonia paulistana,  que tambem pertenciam o conselheiro
Jesuino Marcondes e o Dr. Luiz Alvares.

Dormiram as lettras, e creio que tambem a sciencia, um somno folgado. De
pouco se carecia para fazer ento em Olinda um exame soffrivel e obter a
approvao plena. Em Novembro regressei  Crte com a certido precisa
para a matricula do 4 anno. Tinha pois cumprido o meu dever.

Nessas ferias, emquanto se desenrolava a rebellio de que eu vira o
assomo e cuja catastrophe chorei com os meus, refugiei-me da tristeza
que envolvia nossa casa, na litteratura amena.

Com as minhas bem parcas sobras, tomei uma assignatura em um gabinete de
leitura que ento havia  Rua da Alfandega, e que possuia copiosa
colleco das melhores novellas e romances at ento sahidos dos prelos
francezes e belgas.

Nesse tempo, como ainda hoje, gostava do mar; mas naquella idade as
predileces tm mais vigor e so paixes. No smente a vista do
oceano, suas magestosas perspectivas, a magnitude de sua criao, como
tambem a vida maritima, essa temeridade do homem em lucta com o abysmo,
me enchiam de enthusiasmo e admirao.

Tinha em um anno atravessado o oceano quatro vezes, e uma dellas no
brigue-escuna _Laura_ que me transportou do Cear ao Recife com uma
viagem de onze dias,  vela. Essas impresses recentes alimentavam a
minha fantasia.

Devorei os romances maritimos de Walter Scott e Cooper, um apoz outro;
passei aos do Capito Marryat e depois  quantos se tinham escripto
desse genero, pesquiza em que me ajudava o dono do gabinete, um francez,
de nome Cremieux, se bem me recordo, o qual tinha na cabea toda a sua
livraria.

Li nesse decurso muita cousa mais: o que me faltava de Alexandre Dumas e
Balzac, o que encontrei de Arlincourt, Frederico Souli, Eugnio Sue e
outros. Mas nada valia para mim as grandiosas marinhas de Scott e Cooper
e os combates heroicos de Marryat.

Foi ento, fazem agora vinte e seis annos, que formei o primeiro esboo
regular de um romance, e metti hombros  empreza com infatigavel porfia.
Enchi rimas de papel que tiveram a m sorte de servir de mecha para
accender o cachimbo.

Eis o caso. J formado e praticante no escriptorio do Dr. Caetano
Alberto, passava eu o dia, ausente de nossa chacara  rua do Maruhy n. 7
A.

Meus queridos manuscriptos, o mais precioso thesouro para mim, eu os
trancara na commoda; como, porm, tomassem o lugar da roupa, os tinham,
sem que eu soubesse, arrumado na estante.

D'ahi, um desalmado hospede, todas as noites quando queria pitar,
arrancava uma folha, que torcia  modo de pavio e accendia na vela.
Apenas escaparam ao incendiario alguns capitulos em dois canhenhos, cuja
lettra miuda  custo se distingue no borro de que a tinta, oxydando-se
com o tempo, saturou o papel.

Tinha esse romance por titulo--_Os Contrabandistas_. Sua feitura havia
de ser consoante  inexperiencia de um moo de 18 annos, que nem possuia
o genio precoce de Victor Hugo, nem tinha outra educao litteraria,
seno essa superficial e imperfeita, bebida em leituras  esmo. Minha
ignorancia dos estudos classicos era tal, que eu s conhecia Virgilio e
Horacio, como pontos difficeis do exame de latim, e de Homero apenas
sabia o nome e a reputao.

Mas o trao dos _Contrabandistas_, como o gizei aos 18 annos, ainda hoje
o tenho por um dos melhores e mais felizes de quantos me sugeriu a
imaginao. Houvesse edictor para as obras de longo folego, que j essa
andaria  correr mundo, de preferencia  muitas outras que dei  estampa
nestes ultimos annos.

A variedade dos generos que abrangia este romance, desde o idylio at a
epopa, era o que sobretudo me prendia e agradava. Trabalhava, no pela
ordem dos capitulos, mas destacadamente esta ou aquella das partes em
que se dividia a obra. Conforme a disposio do espirito e a veia da
imaginao, buscava entre todos o episodio que mais se moldava s idas
do momento. Tinha para no perder-me nesse dedalo o fio da aco que no
cessava de percorrer.

 estas circumstancias attribuo ter o meu pensamento, que eu sempre
conheci avido de novidade, se demorado nesse esboo por tanto tempo;
pois, quatro annos depois, j ento formado, ainda era aquelle o thema
unico de meus tentamens no romance; e si alguma outra ida despontou,
foi ella to pallida e ephemera que no deixou vestigios.


VII

Eis-me de repente lanado no turbilho do mundo.

Ao cabo de quatro annos de tirocinio na advocacia, a imprensa diaria, na
qual apenas me arriscara como folhetinista, arrebatou-me. Em fins de
1856 achei-me redactor chefe do _Diario do Rio de Janeiro_.

 longa a historia dessa lucta, que absorveu cerca de tres dos melhores
annos de minha mocidade. Ahi se acrisolaram as audacias que desgostos,
insultos, nem ameaas conseguiram quebrar at agora; antes parece que as
afiam com o tempo.

Ao findar o anno, houve ida de offerecer aos assignantes da folha, um
mimo de festa. Sahiu um romancete, meu primeiro livro, se tal nome cabe
 um folheto de 60 paginas.

Escrevi _Cinco minutos_ em meia duzia de folhetins que iam sahindo na
folha dia por dia, e que foram depois tirados em avulso sem nome do
author. A promptido com que em geral antigos e novos assignantes
reclamavam seu exemplar, e a procura de algumas pessoas que insistiam
por comprar a brochura, somente destinada  distribuio gratuita entre
os subscriptores do jornal; foi a unica, muda mas real, animao que
recebeu essa primeira prova.

Bastou para suster a minha natural perseverana. Tinha leitores e
expontaneos, no illudidos por falsos annuncios. Os mais pomposos
elogios no valiam, e nunca valero para mim, essa silenciosa
manifestao, ainda mais sincera nos paizes como o nosso de opinio
indolente.

Logo depois do primeiro ensaio, veiu a _Viuvinha_. Havia eu em epocha
anterior comeado este romancete, invertendo a ordem chronologica dos
acontecimentos. Deliberei porem mudar de plano, e abri a scena com o
principio da aco.

Tinha eu escripto toda a primeira parte, que era logo publicada em
folhetins; e contava aproveitar na segunda o primitivo fragmento; mas
quando o procuro, dou pela falta.

Sabidas as contas, Leonel[2] que era ento o encarregado da revista
semanal, _Livro do domingo_, como elle a intitulou; achando-se um
sabbado em branco pediu-me alguma coisa com que encher o rodap da
folha. Occupado com outros assumptos, deixei que buscasse entre os meus
borres. No dia seguinte lograva elle aos leitores dando-lhes em vez da
habitual palestra, um conto. Era este o meu principio de romance ao qual
elle tinha posto, com uma linha de reticencias e duas de prosa, um
desses subitos desenlaces que fazem o effeito de uma guilhotina
litteraria.

Fatigado do trabalho da vespera, urgido pelas occupaes do dia, em
constantes tribulaes, nem sempre podia eu passar os olhos por toda a
folha.

Nesse domingo no li a revista, cujo teor j me era conhecido, pois
sahira-me da pasta.

Imagine, como fiquei, em meio de um romance, cuja continuao o leitor
j conhecia oito dias antes. Que fazer? Arrancar do _Livro do domingo_,
as paginas j publicadas? Podia-o fazer; pois o folhetinista no as dera
como suas, e deixara entrever o author; mas fra matar a illuso.

D'ahi veiu o abandono desse romancete, apezar dos pedidos que surgiam 
espaos, instando pela concluso. S tres annos depois, quando meu amigo
e hoje meu cunhado Dr. Joaquim Bento de Souza Andrade, quiz publicar uma
segunda edio de _Cinco Minutos_, escrevi eu o final da _Viuvinha_, que
faz parte do mesmo volume.

O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o
pensamento para um terceiro, porem este j de maior folego. Foi o
_Guarany_, que escrevi dia por dia para o folhetim do _Diario_, entre os
mezes de fevereiro e abril de 1857, si bem me recordo.

No meio das labutaes do jornalismo, oberado no somente com a redaco
de uma folha diaria, mas com a administrao da empreza, desempenhei-me
da tarefa que me impuzera, e cujo alcance eu no medira ao comear a
publicao, apenas com os dois primeiros capitulos escriptos.

Meu tempo dividia-se desta forma. Accordava por assim dizer na meza do
trabalho; e escrevia o resto do capitulo comeado no dia antecedente
para envial-o  typographia. Depois do almoo entrava por novo capitulo,
que deixava em meio. Sahia ento para fazer algum exercicio antes do
jantar no Hotel de Europa. A tarde, at nove ou dez horas da noite,
passava no escriptorio da redaco, onde escrevia o artigo edictorial e
o mais que era preciso.

O resto do sero era repousar o espirito dessa ardua tarefa jornaleira,
em alguma distrao, como o theatro e as sociedades.

Nossa casa no Largo do Rocio n. 73 estava em reparos. Trabalhava eu n'um
quarto do segundo andar, ao estrepito do martelo, sobre uma banquinha de
cedro que apenas chegava para o mister da escripta; e onde a minha velha
caseira Angela servia-me o parco almoo. No tinha comigo um livro; e
soccorria-me unicamente  um canhenho, em que havia em notas o fructo de
meus estudos sobre a natureza e os indigenas do Brasil.

Disse alguem, e repete-se por ahi de outiva que o Guarany  um romance
ao gosto de Cooper. Si assim fosse, haveria coincidencia, e nunca
imitao; mas no . Meus escriptos se parecem tanto com os do illustre
romancista americano, como as varzeas do Cear com as margens do
Delaware.

A impresso profunda que em mim deixou Cooper foi, j lhe disse, como
poeta do mar. Dos _Contrabandistas_, sim, poder-se-hia dizer, apezar da
originalidade da concepo, que foram inspiradas pela leitura do
_Piloto_, do _Corsario Vermelho_, do _Varredor do Mar_ etc. Quanto 
poesia americana, o modelo para mim ainda hoje  Chateaubriand; mas o
mestre que eu tive, foi esta explendida natureza que me envolve, e
particularmente a magnificencia dos desertos que eu perlustrei ao entrar
na adolescencia, e foram o portico magestoso por onde minh'alma penetrou
no passado de sua patria.

D'ahi, desse livro secular e immenso,  que eu tirei as paginas do
_Guarany_, as de _Iracema_, e outras muitas que uma vida no bastaria 
escrever. D'ahi e no das obras de Chateaubriand, e menos das de Cooper,
que no eram seno a copia do original sublime, que eu havia lido com o
corao.

O Brasil tem, como os Estados Unidos, e quaesquer outros povos da
America, um periodo de conquista, em que a raa invasora destre a raa
indigena. Essa lucta apresenta um caracter analogo, pela semelhana dos
aborigenes. S no Per e Mexico differe.

Assim o romancista brasileiro que buscar o assumpto do seu drama nesse
periodo da invaso, no pde escapar ao ponto de contacto com o
escriptor americano. Mas essa approximao vem da historia,  fatal, e
no resulta de uma imitao.

Si Chateaubriand e Cooper no houvessem existido, o romance americano
havia de apparecer no Brasil  seu tempo.

Annos depois de escripto o _Guarany_, reli Cooper afim de verificar a
observao dos criticos e convenci-me de que ella no passa de um rojo.
No ha no romance brasileiro um s personagem de cujo typo se encontre o
molde nos _Mohicanos_, _Espio_, _Outario_, _Sapadores_ e _Leonel
Lincoln_.

No _Guarany_ derrama-se o lirismo de uma imaginao moa, que tem como a
primeira rama o vicio da exhuberancia; por toda a parte a limpha, pobre
de seiva, brota em flor ou folha. Nas obras do iminente romancista
americano, nota-se a singeleza e parcimonia do prosador, que se no
deixa arrebatar pela fantazia, antes a castiga.

Cooper considera o indigena sob o ponto de vista social; e na descripo
dos seus costumes foi _realista_; apresentou-o sob o aspecto vulgar.

No _Guarany_ o selvagem  um ideal, que o escriptor intenta poetisar,
despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os chronistas, e
arrancando-o ao ridiculo que sobre elle projectam os restos embrutecidos
da quasi extincta raa.

Mas Cooper descreve a natureza americana, dizem os criticos. E que havia
elle de descrever, seno a scena do seu drama? Antes delle Walter Scott
deu o modelo dessas paisagens  penna, que fazem parte da cor local.

O que se precisa examinar  si as descripes do _Guarany_ tm algum
parentesco ou affinidade com as descripes de Cooper; mas isso no
fazem os criticos, porque d trabalho e exige que se pense. Entretanto
basta o confronto para conhecer que no se parecem nem no assumpto, nem
no genero e estylo.

A edico avulsa que se tirou do _Guarany_, logo depois de concluida a
publicao em folhetim, foi comprada pela livraria do Brando por um
conto e quatro centos mil reis que cedi  empreza. Era essa edico de
mil exemplares; porem trezentos estavam truncados, com as vendas de
volumes que se faziam  formiga na typographia. Restavam pois
setecentos, sahindo o exemplar  2$000.

Foi isso em 1857. Dois annos depois comprava-se o exemplar  5$000 e
mais, nos belchiores que o tinham  cavallo do cordel, embaixo dos arcos
do Pao; d'onde o tirou o Xavier Pinto para sua livraria da rua dos
Ciganos. A indifferena publica, sino o pretencioso desdm da roda
litteraria, o tinha deixado cahir nas pocilgas dos alfarrabistas.

Durante todo esse tempo e ainda muito depois, no vi na imprensa
qualquer elogio, critica ou simples noticia do romance,  no ser em uma
folha do Rio Grande do Sul, como razo para a transcripo dos
folhetins. Reclamei contra esse abuso que cessou; mas posteriormente
soube que aproveitou-se a composio j adiantada para uma tiragem
avulsa. Com esta anda actualmente a obra na sexta edio.

Na bella introduco que Mendes Leal escreveu ao seu _Calabar_, se
extasiava ante os thezouros da poesia brasileira, que elle suppunha
completamente desconhecidos para ns. _E tudo isto offerecido ao
romancista, virgem, intacto, para escrever, para animar, para reviver._

Que elle o dissesse no ha extranhar; pois ainda hoje os litteratos
portuguezes no conhecem da nossa litteratura, seno o que se lhes manda
de encommenda com um offertorio de mirra e incenso. Do mais no se
occupam; uns por economia, outros por desdem. O Brasil  um mercado para
seus livros e nada mais.

No se comprehende porem que uma folha brasileira, como era o _Correio
Mercantil_, annunciando a publicao do _Calabar_, insistisse na ida de
ser essa obra uma primeira lico do romance nacional dada aos
escriptores brasileiros, e no se advertisse que dois annos antes um
compatriota e seu ex-redactor se havia estreado nessa provincia
litteraria.

_Ha muito que o author pensava na tentativa de criar no Brasil para o
Brasil um genero de litteratura para que elle parece to affeito e que
lhe pode fazer servios reaes._ Quando Mendes Leal escrevia em Lisboa
estas palavras, o romance americano j no era uma novidade para ns; e
tinha no _Guarany_ um exemplar, no arreiado dos primores do _Calabar_,
porem incontestavelmente mais brasileiro.


VIII

Hoje em dia quando surge algum novel escriptor, o apparecimento de seu
primeiro trabalho  uma festa, que celebra-se na imprensa com luminarias
e fogos de vistas. Rufam todos os tambores do jornalismo, e a
litteratura forma parada e apresenta armas ao genio trimphante que sobe
ao Pantheon.

Compare-se essa estrada, tapeada de flores, tom a rota asperrima que eu
tive de abrir, atravez da indifferena e do desdem, desbravando as urzes
da intriga e da maledicencia.

Outros romances  de crer que succedessem ao _Guarany_ no folhetim do
_Diario_; si meu gosto no se voltasse ento para o theatro. De outra
vez fallarei da feio dramatica de minha vida litteraria; e contarei
como e porque veiu-me essa fantazia. Aqui no se trata seno do
romancista.

Em 1862 escrevi _Luciola_, que edictei por minha conta e com o maior
sigillo. Talvez no me animasse  esse comettimento, si a venda da
segunda e terceira edio ao Sr. Garnier, no me alentasse a confiana,
provendo-me de recursos para os gastos da impresso.

O apparecimento de meu novo livro fez-se com a etiqueta, ainda hoje em
voga, dos annuncios e remessa de exemplares  redaco dos jornaes.
Entretanto toda a imprensa diaria resumiu-se nesta noticia de um
laconismo esmagador, publicada pelo _Correio Mercantil_: Sahiu  luz um
livro intitulado _Luciola_. Uma folha de caricaturas trouxe algumas
linhas pondo ao romance taxas de francezia.

Ha de ter ouvido algures, que eu sou um mimoso do publico, cortejado
pela imprensa, tareado de uma voga de favor, vivendo da falsa e ridicula
idolatria  um nome official. Ahi tem as provas cabaes; e por ellas
avalie dessa nova conspirao do despeito que veiu substituir a antiga
conspirao do silencio e da indifferena.

Apezar do desdem da critica de barrete, _Luciola_ conquistou seu
publico, e no somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um anno
esgotou-se a primeira edico de mil exemplares, e o Sr. Garnier
comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguaes condices outro
perfil de mulher, que eu ento gisava.

Por esse tempo fundou a sua _Bibliotheca Brasileira_, o meu amigo Sr.
Quintino Bocayuva, que teve sempre um fraco pelas minha sensaborias
litterarias. Reservou-me um de seus volumes; e pediu-me com que
enchel-o. Alem de esboos e fragmentos, no guardava na pasta seno uns
dez capitulos de romance comeado.

Acceitou-os, e em boa hora os deu  lume; pois esse primeiro tomo
desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier 
edictar a concluso. Sem aquella insistencia de Quintino Bocayuva, _As
Minas do Prata_, obra de maior trao, nunca sahiria da chrisalida, e os
capitulos j escriptos estariam fazendo companhia aos _Contrabandistas_.

De volta de S. Paulo, onde fiz uma excurso de saude, e j em ferias de
politica, com a dissoluo de 13 de Maio de 1863, escrevi _Diva_, que
sahiu  lume no anno seguinte, edictada pelo Sr. Garnier.

Foi dos meus romances,--e j andava no quinto, no contando o volume das
_Minas de Prata_--o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diaria,
e foi acolhido com os cumprimentos banaes da cortezia jornalistica. Teve
mais: o Sr. H. Muzio consagrou-lhe no _Diario do Rio_ um elegante
folhetim, mas de amigo que no de critico.

Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existencia descuidosa e
solteira para entrar na vida da familia onde o homem se completa. Como a
litteratura nunca fra para mim uma Bohemia, e somente um modesto Tibur
para o espirito arredio, este sempre grande acontecimento da historia
individual no marca epocha na minha chronica litteraria.

A composio dos cinco ultimos volumes das _Minas de Prata_ occupou-me
tres mezes entre 1864 e 1865; porem a demorada impresso estorvou-me um
anno, que tanto durou. Ninguem sabe da m influencia que tem exercido na
minha carreira de escriptor, o atraso da nossa arte typographica, que um
constante caiporismo torna em pessima para mim.

Si eu tivesse a fortuna de achar officinas bem montadas com habeis
revisores, meus livros sahiriam mais correctos; a atteno e o tempo por
mim despendidos em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor
aproveitadas em compor outra obra.

Para publicar _Iracema_ em 1869 fui obrigado  edictal-o por minha
conta; e no andei mal inspirado pois antes de dois annos a edico
extinguiu-se.

De todos os meus trabalhos deste genero nenhum havia merecido as honras
que a sympathia e a confraternidade litteraria se esmeram em
prestar-lhes. Alem de agasalhado por todos os jornaes, inspirou 
Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliographicas.

At com sorpresa minha atravessou o oceano, e grangeou a atteno de um
critico illustrado e primoroso escriptor portuguez, o Sr. Pinheiro
Chagas, que dedicou-lhe um de seus ensaios criticos.

Em 1868 a alta politica arrebatou-me s lettras para s restituir-me em
1870. To vivas eram as saudades dos meus borres, que apenas despedi a
pasta auri-verde dos negocios de estado, fui tirar da gaveta onde a
havia escondido, a outra pasta de velho papelo, todo rabiscado, que era
ento a arca de meu thezouro.

Ahi comea outra idade de author, a qual eu chamei de minha _velhice
litteraria_, adoptando o pseudonymo de _senio_, e outros querem seja a
da decrepitude. No me affligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as
veras, desejaria fazer-me escriptor posthumo, trocando de boa vontade os
favores do presente pelas severidades do futuro.

Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de
novo; sino um ou outro pormenor de psychologia litteraria, que omitto
por no alongar-me ainda mais. Afra isso, o resto  monotono; e no
passaria de datas, entremeados da inexgotavel serrazina dos authores
contra os typographos que lhes estripam o pensamento.

Ao cabo de vinte e dois annos de gleba na imprensa, achei afinal um
edictor, o Sr. B. Garnier, que espontaneamente offereceu-me um contracto
vantajoso em meiados de 1870.

O que lhe deve a minha colleco, ainda antes do contracto, ter visto
nesta carta; depois, trouxe-me esta vantagem, que na concepo de um
romance e na sua feitura, no me turva a mente a lembrana do tropeo
material, que pode matar o livro, ou fazer delle uma larva.

Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O _Magnus Apollo_ da poesia
moderna, o deus da inspirao e pae das musas deste seculo,  essa
entidade que se chama edictor, e o seu _Parnaso_ uma livraria. Si
outr'ora houve Homeros, Sophocles, Virgilios, Horacios e Dantes, sem
typographia nem impressor,  porque ento escrevia-se nessa pagina
immortal que se chama a tradico. O poeta cantava; e seus carmes se iam
gravando no corao do povo.

Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um edictor, o bom livro
 no Brasil e por muito tempo ser para seu author, um desastre
financeiro. O cabedal de intelligencia e trabalho que nelle se emprega,
daria em qualquer outra applicao, lucro centuplo.

Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, producto de
minhas obras. E, ninguem ousaria acredital-o, imputam-me isso  crime,
alguma cousa como sordida cobia.

Que paiz  este onde forja-se uma falsidade, e para que? Para tornar
odiosa e despresivel a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre
trabalho, o da intelligencia!

Dir-me-ha que em toda a parte ha dessa praga; sem duvida, mas  praga; e
no tem foros e respeitos de jornal, admittido ao gremio da imprensa.

Excedi-me alm do que devia; o prazer da conversa...[3]

Maio de 1873.

                                                    JOS DE ALENCAR.


    [1] Hoje com a mania das chrismas, do Visconde do Rio Branco.--J. A.

    [2] Conselheiro Leonel de Alencar, hoje Baro de Alencar.

    [3] Aqui ficou interrompida a phrase final deste trabalho, j datado
    e assignado pelo seu autor.





End of Project Gutenberg's Como e porque sou romancista, by Jos de Alencar

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